Mercado

Segurança na impermeabilização de estofados: lições de um acidente evitável

Como prevenir tragédias como a que vitimou passista no Rio

Recentemente uma passista da escola de samba Cubango, da cidade de Niterói – RJ, morreu após duas semanas internada por ferimentos causados em uma explosão durante o processo de impermeabilização de um sofá, em um apartamento. Ela foi a segunda vítima fatal do acidente e outras quatro pessoas também foram hospitalizadas com ferimentos graves. 

O caso nos traz uma discussão importante sobre segurança em um serviço que parece simples, mas envolve procedimentos que exigem atenção ao uso correto de produtos químicos e às condições do ambiente.

Quando aplicados sem seguir as recomendações técnicas, sem ventilação adequada ou com equipamentos impróprios, impermeabilizantes para estofados podem gerar vapores em concentrações indesejadas, reações químicas não previstas e, em situações extremas, acidentes graves. A pergunta que fica é: como profissionais e consumidores podem adotar as boas práticas necessárias para evitar que situações como essa se repitam?

Os riscos

Acidentes durante impermeabilização de estofados geralmente ocorrem por uma combinação de fatores. O principal deles é a falta de ventilação adequada. Alguns impermeabilizantes à base de solventes liberam vapores que, em ambientes fechados, podem atingir concentrações perigosas. Esses vapores não apenas causam intoxicação, como também podem ser inflamáveis.

Outro fator crítico é o uso de produtos inadequados ou falsificados. Formulações caseiras ou produtos de origem duvidosa podem ter composições instáveis ou incompatíveis com os materiais dos estofados. Além disso, a aplicação de quantidade excessiva, técnica inadequada ou mistura com outros produtos podem desencadear reações químicas imprevistas.

A falta de equipamento de proteção individual (EPI) apropriado também aumenta significativamente o risco. Sem respirador adequado, luvas de proteção química e óculos, o profissional fica exposto diretamente aos vapores e ao contato com substâncias corrosivas.

Segundo especialistas da indústria, muitos acidentes ocorrem porque o serviço é realizado por pessoas sem treinamento adequado, que desconhecem os riscos e não seguem os protocolos básicos de segurança.

Entendendo os tipos de impermeabilizantes

Nem todos os impermeabilizantes oferecem os mesmos riscos e benefícios. Existem diferenças importantes entre produtos à base de água e à base de solvente que todo consumidor e profissional deve conhecer.

Impermeabilizantes à base de água

Não possuem emissão de vapores inflamáveis. Oferecem uma alternativa segura em termos de inflamabilidade. No entanto, geralmente oferecem menor durabilidade, a maioria garante proteção de até seis meses. Tecnicamente, são classificados como “protetores de tecido” e não como impermeabilizantes, pois sua capacidade de proteção é mais limitada.

Impermeabilizantes à base de solvente não inflamável

Não proporcionam riscos de inflamabilidade. Exigem alguns cuidados específicos durante a aplicação, como testes prévios em áreas discretas do tecido, pois em raros casos podem reagir com certos tipos de materiais, como verniz de madeira, acrílico ou tecidos delicados. Quando aplicados corretamente, oferecem proteção com segurança.

Impermeabilizantes à base de solvente inflamável

Existem no mercado e possuem solventes orgânicos voláteis. Exigem controle rigoroso de ventilação e eliminação de qualquer fonte potencial de ignição durante e após a aplicação. Necessitam de profissionais altamente treinados e cumprimento rigoroso das orientações da Ficha de Dados de Segurança (FDS).

Os erros mais cometidos

Em conversa com especialistas do setor, um ponto crítico foi evidenciado: a escolha do produto baseada exclusivamente no preço. Muitos profissionais optam por impermeabilizantes mais baratos sem considerar adequadamente os riscos envolvidos no processo de aplicação e a durabilidade real do produto.

“A decisão de qual produto usar não deve ser apenas financeira. Um produto mais seguro e durável oferece melhor valor ao cliente a longo prazo e protege tanto o consumidor quanto o profissional”, explica Fritz Paixão, fundador da CleanNew, empresa especializada em higienização de estofados.

Para Rafael Esteves, Diretor Técnico da G&S Home Solutions, empresa que atua no desenvolvimento de produtos profissionais para o mercado têxtil de higienização e impermeabilização, muitos erros também estão associados ao desconhecimento da tecnologia empregada no produto e descumprimento das orientações de segurança discriminadas pelo fabricante durante a aplicação: “A crescente entrada de profissionais no segmento sem a qualificação técnica necessária agravou essa situação. A facilidade de acesso aos equipamentos e a popularização do serviço nas redes sociais fizeram com que muitas pessoas passassem a atuar na área sem o devido conhecimento sobre as diferentes tecnologias disponíveis, suas aplicações, limitações e requisitos de segurança.”

A recomendação é clara: invista em produtos que equilibrem segurança, eficácia e durabilidade. Um produto mais caro, mas seguro e durável, é sempre melhor escolha do que economizar alguns reais comprometendo a segurança. O mesmo vale para a escolha do profissional. Certifique-se de sua qualificação para realização do serviço.

Dicas práticas para consumidores

Se você está pensando em impermeabilizar seus estofados, aqui estão as perguntas que deve fazer e os sinais de profissionalismo que deve observar:

  • A empresa é registrada e tem referências? Peça indicações de clientes anteriores.
  • Qual produto será usado? Peça para ver a embalagem, as instruções e a Ficha de Dados de Segurança (FDS).
  • Entenda se é à base de água ou solvente e quais são as características, cuidados necessários e riscos envolvidos.
  • Qual é a durabilidade esperada do produto? Produtos com maior durabilidade oferecem melhor custo-benefício.
  • O profissional fará teste prévio em área discreta? Isso indica profissionalismo e cuidado.
  • Como será garantida a ventilação? O profissional tem um plano claro para isso?
  • Quanto tempo o ambiente ficará indisponível após o serviço?
  • O profissional usará EPI? Se disser que não é necessário, desconfie.
  • Há garantia do serviço? Um profissional seguro oferece garantia.

Além desses cuidados, mantenha crianças e animais de estimação longe do ambiente durante a aplicação. Após o serviço, siga as instruções de ventilação à risca, geralmente é indicado manter janelas abertas por várias horas. Não use o estofado até que o produto esteja completamente seco e o cheiro tenha desaparecido.

Se durante ou após o serviço você ou alguém da família sentir tontura, dor de cabeça, irritação nos olhos ou qualquer reação estranha, procure atendimento médico e informe que houve contato com impermeabilizante químico.

O que fica como lição

A tragédia que vitimou a passista da Cubango é um lembrete de que profissionalismo e segurança andam juntos. Impermeabilizar estofados é um serviço necessário, mas exige conhecimento, responsabilidade e respeito aos protocolos de segurança. A profissionalização na prestação desse serviço é essencial. Profissionais treinados entendem as características dos produtos, sabem como aplicá-los corretamente, garantem as condições adequadas do ambiente e protegem tanto seus clientes quanto a si mesmos.

Para profissionais que desejam se capacitar, a ABRALIMP oferece o curso “Limpeza, Higienização e Impermeabilização de Estofados” através da Fundação UniABRALIMP, que aborda não apenas as técnicas corretas, mas também todos os aspectos de segurança envolvidos. Confira as capacitações disponibilizadas pela UniABRALIMP no site oficial: clique aqui.

Consumidores e profissionais têm a responsabilidade compartilhada de garantir que esse serviço seja realizado com segurança. Acidentes como esse são evitáveis quando há conhecimento, treinamento e respeito às normas de segurança.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *